Se estás à procura de como aprender mais rápido qualquer coisa, seja uma língua, um instrumento ou uma nova profissão, este guia foi feito para ti. Aqui vais perceber porque é que a prática sozinha não chega, o que está errado no mito das 10 000 horas e quais são as 4 peças da prática deliberada, o método que a ciência mostra que os especialistas usam para evoluir mais depressa.

Um taxista passa mais horas ao volante do que um piloto de Fórmula 1. Tem mais quilómetros, mais anos de estrada e mais experiência acumulada. Mesmo assim, se os pusesses aos dois no mesmo táxi, numa pista, sabes quem dava a volta mais rápida.

Se a prática levasse à perfeição, o taxista ganhava. Não ganha, e a razão explica porque é que há pessoas que aprendem uma coisa nova em meses e outras que passam anos no mesmo sítio.

Junto aqui o que a ciência diz sobre o tema, o que vi acontecer com milhares de alunos e o que testei em mim. Adoro aprender coisas novas, e foi assim que passei de professor de ténis a ter uma escola online.

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A prática sozinha não te leva à perfeição

Praticar funciona muito bem no início. Quando não sabes nada, o simples facto de praticares já te torna melhor. O problema chega depois: se praticas sempre da mesma forma, atinges um patamar e, a partir daí, mais horas deixam de significar mais evolução.

Anders Ericsson, o psicólogo que passou a vida a estudar especialistas, dá um exemplo que me marcou no livro Peak (em português, Direto ao Ponto). Em avaliações objetivas, médicos com 20 ou 30 anos de carreira saíram-se pior do que colegas acabados de formar. Vinte anos de experiência podem ser um ano repetido vinte vezes.

O mito das 10 000 horas

Talvez já tenhas ouvido que precisas de 10 000 horas para seres bom em alguma coisa. A ideia ficou famosa com o livro Outliers, de Malcolm Gladwell, que se baseou num estudo do próprio Ericsson.

Ericsson queria perceber quantas horas tinham praticado as pessoas que eram muito boas numa área, e a média andava por aí. Só que mais tarde veio dizer que o estudo tinha sido mal interpretado: as horas, sozinhas, não chegam. Nas palavras dele, as 10 000 horas são apenas metade do caminho. A outra metade é como praticas.

É aqui que entra a diferença entre dois tipos de prática.

  • Prática ingénua: fazes a coisa em piloto automático. Lês o livro sem refletir sobre ele, vais ao ginásio sem nunca pensar se o peso ou a técnica estão a melhorar, jogas ténis sem nunca trabalhar o serviço.
  • Prática deliberada: repetes com intenção, foco e correção.

Não há mal nenhum na prática ingénua se o objetivo for passar o tempo. Mas se queres ficar bom, por exemplo numa profissão nova para ganhares mais dinheiro, ver aulas e vídeos ao calhas não chega.

As 4 peças da prática deliberada

Volta ao piloto de Fórmula 1. Ele tem um objetivo específico, treina no limite das capacidades, está com atenção total e recebe feedback imediato. O taxista, na melhor das hipóteses, tem a primeira. Estas são as quatro peças que precisas de trazer para aquilo que estás a aprender.

1. Um objetivo específico

Em 2024 comecei a aprender piano com um objetivo muito concreto: tocar uma música em palco no Master and Scale, o evento presencial que faço com os meus alunos. E toquei.

O erro que vejo mais vezes é pensar “comprei o curso, está feito”. Comprar o curso é o primeiro passo. A seguir precisas de metas: este mês quero abordar o meu primeiro potencial cliente; no mês dois quero fechá-lo; no mês três quero ter três. Ver mais aulas, por si só, não é uma meta.

2. No limite das tuas capacidades

Imagina duas pessoas no ginásio durante meses. A primeira faz sempre os mesmos exercícios, com a mesma carga e os mesmos intervalos. A segunda, quando se sente confortável, sobe um pouco o peso, encurta o descanso ou acrescenta repetições. Passaram as mesmas horas lá dentro, e a segunda evolui muito mais depressa.

Ericsson descreve o mesmo no cérebro: muda mais depressa quando a prática te empurra para fora da zona de conforto, mas não demais. Nem confortável nem impossível. Se estás sempre confortável, não estás a aprender.

Esta fase custa, e é onde a maioria desiste. Falei disso no vídeo sobre as 4 fases por que todos passam ao aprender algo novo.

3. Atenção total

No ginásio há quem respeite os tempos e se concentre em cada série, e há quem pegue no telemóvel no intervalo e transforme 30 segundos de descanso em dois minutos. O mesmo vale para estudar para um teste ou aprender uma profissão: estás mesmo ali, ou a meio da tarefa já estás a pensar noutra coisa?

4. Feedback imediato

A internet é maravilhosa. O que me levou sete ou oito horas a ler no livro de Ericsson, consegues aprender num vídeo de 12 minutos. Mas informação disponível não é o mesmo que informação suficiente.

Quando te propões a aprender alguma coisa, precisas de alguém que perceba da área e te corrija. Os melhores do mundo têm treinador. Se és iniciante, és quem mais precisa de um. Eu, sempre que aprendo uma coisa nova, tenho alguém a orientar-me.

Dois hábitos que a ciência mostra que ajudam a fixar o que aprendes

A prática deliberada é a base. Há dois hábitos simples que a investigação mostra que fazem o resto render mais.

Testa-te em vez de releres. No livro Make It Stick (em português, Fixe o Conhecimento), os investigadores Peter Brown, Henry Roediger e Mark McDaniel mostram que tentar lembrar de cabeça o que acabaste de estudar fixa muito mais do que voltar a ler. Quanto mais esforço te custa recuperar a informação, maior o benefício. Fecha o livro e tenta explicar o que leste.

Dorme na noite a seguir. O neurocientista Matthew Walker explica em Porque Dormimos que o sono faz parte da aprendizagem: é nessa noite que o cérebro consolida o que aprendeste durante o dia. Se não dormires bem logo a seguir, perdes parte dessa consolidação, mesmo que recuperes o sono mais tarde.

Como usar a inteligência artificial para aprender (sem cair na armadilha)

Uso IA todos os dias. Para preparar o vídeo que deu origem a este artigo, demorei 30 minutos em vez de duas horas. Mas há um risco de que pouca gente fala: a IA deixa-te fazer mais e mais depressa, e se estiveres a fazer mal, vais ficar incompetente ao dobro da velocidade.

Já a apanhei várias vezes a errar em temas que domino. Só dei conta porque percebia do assunto. Quando não percebo, o mais provável é aceitar a resposta como verdadeira. Quem tem uma profissão online já vê isto com clientes que chegam com ideias erradas depois de “debaterem” o tema com uma IA.

A minha recomendação:

  • Aprende por um meio convencional: um livro, um curso, um professor.
  • Mantém o feedback de uma pessoa que domina a área.
  • Usa a IA como complemento, para debater ideias, ver outros pontos de vista e juntar informação mais depressa. Hoje estudo com o livro aberto e uma conversa com a IA sobre esse livro ao lado, mas nunca troco um pelo outro.

Resumo: como aprender mais rápido a partir de hoje

  1. Define a meta: o que queres conseguir até ao fim desta semana e deste mês?
  2. Trabalha no limite: quando ficar confortável, aumenta a dificuldade.
  3. Dá atenção total ao tempo de prática.
  4. Procura correção a sério de quem domina a área.
  5. Sai do consumo e entra na execução: menos aulas vistas, mais coisas feitas, testadas e corrigidas.
  6. Aceita o desconforto. É o sinal de que estás a aprender.

Se a coisa nova que queres aprender é uma forma de ganhar mais dinheiro, tenho um mini-curso gratuito onde te mostro como funciona a profissão de gestor de tráfego. Acede aqui ao mini-curso gratuito.

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Perguntas frequentes

Como aprender mais rápido qualquer coisa?

Com prática deliberada: um objetivo específico, treino no limite das tuas capacidades, atenção total e feedback de quem domina a área. Junta a isso testar-te em vez de releres e dormir bem na noite a seguir.

As 10 000 horas são verdade?

Em parte. O estudo de Anders Ericsson encontrou essa média entre especialistas, mas o próprio autor explicou que as horas sozinhas não chegam. O que faz a diferença é a qualidade da prática.

O que é prática deliberada?

É repetir uma tarefa com intenção, foco e correção, sempre um pouco acima do que já consegues fazer. É o oposto da prática em piloto automático.

Posso aprender só com inteligência artificial?

Não é boa ideia. A IA ajuda a debater ideias e a acelerar, mas erra, e se não dominas o tema não dás pelo erro. Usa-a como complemento de um livro, curso ou professor.

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