Afinal, compensa trabalhar a recibos verdes? Faz as contas e descobre a verdade
Se estás a pensar se compensa trabalhar a recibos verdes, esta calculadora diz-te quanto terias de faturar a recibos verdes para ficares como estás hoje. Respondes a três perguntas sobre o teu emprego e a conta sai dos teus números.
Serve para quem tem contrato e está a pensar trabalhar por conta própria, para quem já passa recibos ao lado do emprego e quer saber quando pode dar o salto, e para quem recebeu uma proposta a recibos verdes e quer compará-la com o salário que tem.
Quase toda a gente faz esta conta de cabeça e engana-se da mesma maneira: acha que ganhando 1 200 € basta faturar 1 200 €. Não basta, e a diferença costuma ser maior do que se imagina.
O valor que te entra na conta, já depois dos descontos. Não é o salário bruto: é o que fica.
A maioria dos contratos em Portugal paga 14: os 12 meses mais os subsídios de férias e de Natal. Há quem os receba diluídos pelos 12.
Quem abre atividade pela primeira vez só começa a descontar para a Segurança Social no 1.º dia do 12.º mês. Nesse primeiro ano precisas de faturar menos.
Responde às três perguntas aqui em cima e o resultado aparece nesta zona.
Para ficares como estás hoje
1 372,23 € por mês
É quanto terias de faturar a recibos verdes só para não perderes nada.
E sabes de onde vem esse dinheiro todo?
Sair do emprego é a parte fácil. A difícil é arranjar quem te pague todos os meses — e é uma coisa que se aprende. No meu mini-curso mostro-te como.
0 €
é o que ganhas hoje, no ano inteiro
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a mais por mês, face ao que recebes
0 €
por mês para a Segurança Social
Quanto tens de faturar para ganhar o mesmo, linha a linha
De onde vem o número de cima:
| Linha | Valor | O que é |
|---|---|---|
| Ganhas hoje | — | por mês, limpo |
| No ano | — | com os subsídios |
| Por 12 meses | — | é este o teu verdadeiro mês |
| Tens de faturar | — | para te sobrar o mesmo |
Três coisas para pores na conta antes de decidires. As férias passam a sair do teu preço, e por isso o preço tem de as incluir. Os primeiros 10 dias de cada baixa são por tua conta, e a partir do 11.º há subsídio. E convém ter uns meses guardados para o caso de um cliente falhar. Nada disto impede ninguém de mudar de vida — quem conta com isto desde o início costuma aguentar-se, e quem não conta é que desiste ao terceiro mês.
E há o outro lado, que quase ninguém mostra. Num emprego o teu máximo está escrito no contrato de outra pessoa, e o aumento depende do ano que a empresa teve. Como prestador de serviços, queres ganhar mais e cobras mais, ou arranjas mais um cliente. Deixas de depender de uma só decisão, o teu tempo passa a ser teu, e aquilo que começa como trabalho pode crescer até ser um negócio com gente a trabalhar contigo. Do lado do contrato, essa porta não existe.
Alguma conta não bate certo? Avisa-me.
Vão também os valores que preencheste, para eu poder repetir a conta. Mais nada.
De onde vêm estes números: contribuição de 21,4% sobre 70% do rendimento, isenção até ao 12.º mês de atividade, mínimo de 20 € e base máxima de 6 445,56 € — Guia Prático do Novo Regime dos Trabalhadores Independentes (ISS, 1009 v1.09). Do lado do emprego, a taxa contributiva global é de 34,75%, dos quais 11% saem do trabalhador — Guia Prático das Entidades Empregadoras (ISS). Não inclui o IRS, que muda com o escalão e só se acerta na declaração anual: para o veres, usa o simulador de recibos verdes. As prestações a que o trabalhador independente tem direito (doença a partir do 11.º dia, parentalidade desde o 1.º, velhice, invalidez, doenças profissionais, morte, e cessação de atividade apenas para quem depende de uma única entidade contratante) constam do mesmo guia do ISS. Regras verificadas em setembro de 2026. Isto é uma estimativa e não substitui a conversa com o teu contabilista.
Como calcular o teu salário real para comparar com os recibos verdes
Soma tudo o que recebes num ano e divide por 12. É esse o número que tens de comparar com a faturação, e não o salário de cada mês. Pergunta a alguém quanto ganha e a resposta é sempre um número por mês, mas quem recebe 14 meses ganha mais do que isso.
Quem ganha 1 000 € limpos em 14 meses leva 14 000 € para casa por ano. Isso são 1 167 € por mês, e não 1 000 €. A diferença aparece em julho e em dezembro, e por isso ninguém a conta como salário — mas é salário.
É o primeiro erro de quem faz esta conta de cabeça, e sozinho já chega para estragar a decisão.
Subsídio de férias e de Natal a recibos verdes: os 14 meses passam a 12
Deixam de existir. Quem trabalha por conta própria recebe 12 meses, e não 14 — e não é que os subsídios cheguem noutra altura. Se queres continuar a ter aquele dinheiro em julho, é de ti que ele tem de sair, faturado ao longo do ano.
É por isso que a calculadora te pergunta se recebes 14 ou 12. Quem recebe os subsídios diluídos pelos doze meses já está habituado ao número certo; quem os recebe à parte vai levar um susto.
Férias a recibos verdes: tens as que quiseres, mas ninguém tas paga
Tem as férias que quiser, mas ninguém lhas paga. Como empregado, tiras férias e o ordenado entra na mesma. Por conta própria, o mês em que paras é um mês em que não faturas — e a renda, a Segurança Social e o contabilista não tiram férias contigo.
Há quem resolva isto a trabalhar o ano todo, que é o que acontece na prática a muita gente nesta área. Mas convém ser uma escolha, e não uma surpresa.
Baixa médica a recibos verdes: tens direito a partir do 11.º dia
Tens direito a subsídio de doença, mas só a partir do 11.º dia de cada baixa. Circula muito a ideia de que quem passa recibos não tem baixa nenhuma, e está errada: a diferença está em quando começa.
Como empregado, uma gripe de uma semana é uma semana paga. A recibos verdes, os primeiros 10 dias de cada baixa são por tua conta — e, durante esses dias, continuas a pagar contribuições. Só a partir do 11.º dia é que começas a receber o subsídio e deixas de pagar contribuições. A exceção é o internamento hospitalar, em que o subsídio conta desde o primeiro dia.
Ou seja: as constipações e as semanas más saem do teu bolso. As doenças longas, não.
É aqui que entra o direito de opção de que falo no simulador: podes escolher declarar até 25% acima do que recebeste, e isso melhora exatamente o que te pagam numa baixa, numa licença parental ou na reforma. Pagar mais hoje é comprar rede para amanhã.
Reforma a recibos verdes: os descontos contam
Contam. Outra ideia errada comum é a de que quem trabalha como independente “não desconta para a reforma”. Desconta, e dá direito a pensão como qualquer empregado.
A contribuição de trabalhador independente dá direito a pensão de velhice e a pensão de invalidez, tal como a de um empregado. O que muda é o valor: a pensão calcula-se sobre o que declaraste ao longo da vida, e quem declara pouco recebe pouco.
E dá direito a mais do que isso — parentalidade desde o primeiro dia, doenças profissionais, pensão de sobrevivência para a família. A lista é quase a mesma de quem tem contrato.
Quanto se desconta para a Segurança Social a recibos verdes
Como independente, 21,4% sobre 70% do que faturas: perto de 15 cêntimos por cada euro. Como empregado, descontas 11% e nem lhes tocas — saem do salário antes de o veres. O que quase ninguém sabe é que a empresa paga ainda mais por cima: a taxa global são 34,75%, e a parte dela é a maior.
Por conta própria pagas menos do que os 34,75% totais, mas com uma diferença que muda tudo — sai do teu bolso, e és tu que a entregas, entre o dia 10 e o dia 20 do mês seguinte.
Vantagens de trabalhar a recibos verdes: o outro lado que ninguém te mostra
Em Portugal cresce-se a ouvir que o contrato sem termo é o objetivo de uma vida. Estabilidade, segurança, um ordenado certo ao dia 30. É uma ideia com fundo de verdade, e é também uma ideia incompleta — porque ninguém fala do que se troca por ela.
Deixas de ter tecto
Num emprego, o teu máximo está escrito no contrato de outra pessoa. Podes ser o melhor da equipa e continuar a ganhar o que lá está, até alguém decidir o contrário. O aumento não depende de ti: depende do ano que a empresa teve, do orçamento, do teu chefe.
Como prestador de serviços, esse tecto desaparece. Queres ganhar mais? Cobras mais, ou arranjas mais um cliente. Continua a ser difícil — mas passa a ser uma coisa em que podes mexer.
Deixas de ter um só patrão
Isto ouve-se pouco e é importante: quem tem contrato depende de uma decisão. Se a empresa fecha, se muda de rumo, se o teu departamento deixa de fazer sentido, acabou tudo de uma vez.
Com cinco clientes, perder um é um mês mau. Chamam-lhe instabilidade, mas é o contrário: é ter o risco repartido em vez de o ter todo no mesmo sítio.
Isto pode deixar de ser um trabalho e passar a ser um negócio
Um emprego é sempre um emprego. O que começas a recibos verdes pode crescer: mais clientes do que consegues servir, alguém a ajudar-te, depois uma equipa, depois uma empresa que funciona sem tu estares lá a horas.
Nem toda a gente quer isso, e não tem de querer. Mas repara que a porta existe, e que do lado do contrato ela não existe de todo.
O tempo passa a ser teu
Não é trabalhar menos — muita gente trabalha mais. É decidir quando. Levar o miúdo à escola sem pedir autorização, trabalhar às seis da manhã ou às onze da noite, tirar uma terça-feira e compensar ao sábado.
Para muita gente isto vale mais do que a diferença de dinheiro que esta calculadora te mostrou.
E o primeiro ano é de graça
Quem abre atividade pela primeira vez não desconta para a Segurança Social até ao 12.º mês. É um ano inteiro com o número desta calculadora mais baixo — precisamente o ano em que estás a arrancar e mais precisas disso.
Subsídio de desemprego a recibos verdes: a verdadeira diferença
Na maior parte dos casos, não. De tudo o que muda, esta é a única em que a proteção de quem passa recibos verdes é mesmo mais fraca. Convém sabê-lo antes de decidir, e não depois.
Existe um subsídio por cessação de atividade para trabalhadores independentes. Mas só se aplica a quem for economicamente dependente de uma única entidade contratante — quem trabalha quase todo para um cliente só. Quem tem cinco clientes e os perde a todos não está nessa situação, e fica sem rede.
Junta-se a isto outra coisa: se sais do emprego por tua vontade, regra geral também não tens direito a subsídio de desemprego pelo contrato que deixaste.
É a pergunta a levar à Segurança Social antes de decidires, com o teu caso concreto na mão.
Então, compensa trabalhar a recibos verdes?
A pergunta está mal feita, e é por isso que a calculadora não te responde com um sim ou um não.
O número que ela te dá é o empate: quanto tens de faturar para ficares onde já estás. Não é objetivo nenhum — é o chão. Ninguém larga um emprego para ficar na mesma.
A pergunta certa é outra: consigo faturar bastante mais do que isto? E repara que essa pergunta tem uma vantagem enorme sobre a do salário — a resposta depende de ti. Ninguém te vai dizer que este ano não há aumentos.
Os erros mais comuns de quem troca o contrato por recibos verdes
- Usar o salário mensal em vez do anual. Esquecer os subsídios tira logo 17% à conta.
- Esquecer que a Segurança Social passa a sair do próprio bolso. Como empregado nunca se vê aquele dinheiro; a recibos verdes vê-se, e tens de o pôr de lado todos os meses.
- Contar com o primeiro ano para sempre. A isenção acaba ao 12.º mês, e nessa altura aparece uma despesa nova.
- Sair sem clientes. O erro mais caro de todos, e o único que não se corrige com uma folha de cálculo.
Perguntas frequentes sobre trabalhar a recibos verdes
Qual a diferença entre recibos verdes e contrato de trabalho?
Com contrato, vendes o teu tempo a uma entidade: tens horário, chefe, salário fixo, 14 meses e a empresa trata dos descontos. A recibos verdes, vendes um serviço a quem quiseres: tu marcas o preço, escolhes os clientes e entregas tu a Segurança Social. Não há subsídios de férias e de Natal, mas também não há um máximo escrito no contrato de outra pessoa.
Posso começar a passar recibos verdes sem largar o emprego?
Podes, e é a forma mais segura de testar. Enquanto o teu rendimento relevante como independente ficar abaixo de 2 148,52 € por mês, não pagas Segurança Social como independente, porque já descontas pelo emprego. O único cuidado: não passes recibos à própria empresa onde tens contrato para fazer o mesmo trabalho. Isso tem nome na lei, falsos recibos verdes, e quem perde és tu.
Quanto vou receber a recibos verdes, depois dos descontos?
Fora do primeiro ano, por cada 1 000 € que faturas ficam perto de 850 € depois da Segurança Social. O IRS vem à parte e depende do teu escalão. Para veres o valor com retenção e IVA, usa o simulador de recibos verdes.
E quanto pago de IRS?
Pagas IRS tal como no emprego. O que muda é a forma: os clientes com contabilidade retêm 23% em cada recibo, e o imposto certo acerta-se na declaração anual. Se contares faturar menos de 15 000 € por ano, podes pedir que não te retenham nada. Só não te esqueças de guardar esse dinheiro para a declaração.
Recibos verdes ou abrir empresa?
Para quem está a começar, os recibos verdes são o caminho mais simples: abres atividade de graça no Portal das Finanças e não precisas de contabilista para começar. Uma empresa traz contabilidade organizada, contabilista certificado e mais custos fixos, e costuma fazer sentido mais tarde, quando a faturação cresce. O momento certo para mudar é uma conversa a ter com o teu contabilista, com os teus números na mão.
Como começar a trabalhar por conta própria em Portugal?
A parte burocrática faz-se numa tarde: abres atividade no Portal das Finanças e passas a emitir recibos verdes. A parte que decide tudo é outra, que é ter quem te pague. Começa com um serviço que as empresas precisem todos os meses e arranja o primeiro cliente antes de largares o emprego. No mini-curso gratuito mostro-te como.
E agora, quem te vai pagar?
Já tens o número. É só isso: um número, e não um muro.
Repara no que ele é de facto — o teu ponto zero. Um salário dá-te esse número garantido e mais nada: o tecto vem escrito no contrato e não se mexe. Por tua conta, aquele valor é o chão, e o que está acima dele depende de ti e de quantos clientes conseguires servir.
Há quem chegue aqui, veja a diferença e conclua logo que não dá. Há quem conclua logo que dá. Nenhuma das duas respostas sai da calculadora: ela só te mostra onde está o chão. Passar recibos verdes é a parte administrativa, e essa resolve-se numa tarde no Portal das Finanças. A parte que decide se resulta ou não é arranjar quem te pague — e isso aprende-se, como tudo.
É disso que trata o resto deste site.