Os recibos verdes são a forma de receber dinheiro por um trabalho que fazes sem ter contrato, e como funcionam os recibos verdes depende de três coisas: se estás ou não no teu primeiro ano de actividade, se tens ou não um emprego por conta de outrem, e se quem te paga é uma pessoa ou uma empresa. Essas três respostas mudam quanto te fica na mão e, neste artigo, vais ver cada combinação com números em cima da mesa, quando é que passas a cobrar IVA, e um simulador gratuito onde metes os teus próprios valores.
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O que são os recibos verdes
Quando trabalhas com contrato, a empresa trata de tudo: desconta-te para a Segurança Social, retém-te o IRS, e tu recebes o que sobra sem pensar no assunto. Quando prestas um serviço por tua conta, passas a ser o que a lei chama trabalhador independente, e és tu que emites o documento que comprova o pagamento. Esse documento é o recibo verde, e hoje emite-se no Portal das Finanças em poucos minutos.
A parte que assusta não é o documento. É a dúvida sobre quanto é que o Estado leva, e é isso que vamos resolver aqui.
Como funcionam os recibos verdes: as três perguntas que mudam tudo
Antes de qualquer conta, há três respostas a dar. Vais ver estas mesmas três perguntas no simulador, e é por elas que o resultado muda tanto de pessoa para pessoa.
É o teu primeiro ano de actividade? No primeiro ano de actividade estás isento de contribuir para a Segurança Social. Isto por si só muda centenas de euros por mês, e faz do primeiro ano o melhor momento para experimentar uma profissão nova.
Tens emprego por conta de outrem? Se tens contrato, a empresa onde trabalhas já desconta para a Segurança Social por ti. Até um certo valor de facturação, isso isenta-te de descontar outra vez pelos recibos verdes.
Quem te paga é uma pessoa ou uma empresa? Uma empresa com contabilidade organizada retém-te o IRS antes de te pagar. Um particular não retém nada. O dinheiro que entra na tua conta no mesmo mês é diferente nos dois casos, mesmo facturando o mesmo valor.
Os números com 1 000 € por mês
Vamos seguir o mesmo exemplo do princípio ao fim: facturas 1 000 € num mês. Todos os valores abaixo são por mês, para poderes comparar.
| A tua situação | Quem te paga | Fica na tua mão |
|---|---|---|
| Primeiro ano de actividade | Um particular | 1 000 € |
| Primeiro ano de actividade | Uma empresa | 770 € |
| Já fora do primeiro ano, com emprego | Um particular | 1 000 € |
| Já fora do primeiro ano, sem emprego | Um particular | 850 € |
| Já fora do primeiro ano, sem emprego | Uma empresa | 620 € |
No primeiro ano a vender a particulares, ficam-te os 1 000 € inteiros: não há Segurança Social por causa da isenção, e não há retenção porque o cliente é uma pessoa.
No primeiro ano a vender a empresas, entram-te 770 €. A diferença são 230 € que o teu cliente retém e entrega directamente ao Estado por tua conta, à conta do teu IRS. Repara bem nesta parte, porque é a que confunde mais gente: esse dinheiro não desapareceu, é IRS adiantado. Quando fizeres o acerto anual, parte dele pode voltar para ti.
Já fora do primeiro ano, se tiveres emprego, continuam a ficar-te os 1 000 € quando vendes a particulares, porque a Segurança Social já está paga pelo teu contrato. É o cenário de quem começa ao lado do emprego, e é o mais comum entre os meus alunos.
Já fora do primeiro ano e sem emprego, com os recibos verdes como única fonte de rendimento, pagas cerca de 150 € de Segurança Social e ficam-te 850 €. A contribuição calcula-se sobre 70% do que facturaste, à taxa de 21,4%, e é por isso que dá este valor. Se nesse mesmo cenário os teus clientes forem empresas, juntas-lhe a retenção de 23% e ficam-te 620 € no mês, com a ressalva de sempre: a retenção é IRS adiantado e parte pode voltar no acerto anual.
Quando passas a cobrar IVA
Com uma facturação anual até 15 000 € estás isento de IVA. Ao ritmo do nosso exemplo, 1 000 € por mês dão 12 000 € por ano, portanto ainda abaixo do limite e sem IVA nenhum para cobrar.
Quando passas esse valor, começas a acrescentar IVA às tuas facturas. Vale a pena perceber uma coisa: o IVA não sai do teu bolso. Podes calcular o IVA de qualquer valor antes de passar a factura. Acrescentas 23% ao que cobras, o cliente paga esse valor a mais, e tu entregas essa parte ao Estado. Para um cliente que seja empresa isto é quase indiferente, porque ele próprio deduz esse IVA.
O cenário de quem já vive disto
Se facturares 20 000 € ao ano, já fora do primeiro ano e sem emprego, estás nos 1 667 € por mês. Daí saem cerca de 249 € de Segurança Social e cerca de 383 € de retenção na fonte, e ficam-te cerca de 1 034 € por mês. Mais uma vez, parte da retenção pode voltar no acerto anual do IRS.
Nos Açores e na Madeira a taxa de IVA é mais baixa do que no continente, por isso o valor que acrescentas às facturas também muda.
Mete os teus números no simulador
Perceber como funcionam os recibos verdes na teoria é metade do caminho. A outra metade é ver a conta com o teu valor de facturação e as tuas três respostas. Fiz um simulador de recibos verdes gratuito onde metes a tua facturação, respondes às três perguntas, e ele mostra-te a Segurança Social, a retenção do IRS e o que te sobra ao fim do mês. Não pede e-mail, não pede pagamento, é abrir e usar.
Mostra-te também para onde vai cada euro, que é a parte que tira o medo: deixa de ser um desconto misterioso e passa a ser uma conta que tu vês.
“Então facturar 1 000 € no digital não vale a pena?”
É a pergunta que me fazem sempre a seguir a estas contas, e a resposta honesta tem três partes.
A primeira é que podes facturar estes 1 000 € mantendo o teu emprego. Muitos dos meus alunos fazem exactamente isso: começam ao lado do trabalho que já têm, e nesse cenário a Segurança Social já está paga.
A segunda é que, se estiveres no primeiro ano, tens a isenção. É uma janela boa para testar uma profissão nova sem o peso das contribuições.
A terceira é que 1 000 € por mês, numa profissão digital como a de gestor de tráfego, são quatro a cinco clientes, e não ficas preso a esse número. Podes facturar dois mil, três mil, cinco mil. Pagas mais impostos, é verdade, e também te fica mais dinheiro na mão, com a diferença de que mandas no teu tempo e no teu negócio.
E fica esta, que é a que costuma mudar a conversa: num trabalho por conta de outrem já pagas Segurança Social e IRS todos os meses, e podes ver quanto no simulador de salário líquido. A diferença é que não vês. Quando passas a ver, dói mais, só que o valor já lá estava.
Dois avisos antes de te preocupares com isto
Este artigo existe para tirar uma dúvida, não para te dar trabalho a mais. E a ordem pela qual as coisas acontecem importa.
Primeiro a habilidade, depois o cliente, só depois a papelada. Vejo muita gente parada a estudar a parte fiscal antes de saber fazer o trabalho. Não te prendas aí. Primeiro aprendes a técnica, depois vais atrás dos primeiros clientes, e só quando fechares o primeiro é que esta parte passa a ser um problema teu. Para começares a estudar não precisas de abrir actividade nem de papelada nenhuma.
A partir do primeiro cliente, fala com um contabilista. Uma consultoria, mesmo que seja uma só, resolve-te as dúvidas do teu caso concreto. A partir do momento em que estás a facturar, já estás a sério no jogo, e vale o investimento. Este artigo e o simulador dão-te a noção; o teu caso tem detalhes que só um contabilista vê.
Nota: Queres aprender uma profissão digital que se faz a partir de casa? O Mini-Curso de Gestor de Tráfego é gratuito e leva-te do zero aos primeiros passos. E se queres ver quanto se ganha nisto, tenho um artigo com as contas em quanto ganha um gestor de tráfego.
Perguntas frequentes
Preciso de abrir actividade para começar a estudar uma profissão digital? Não. Para estudar não precisas de nada. A abertura de actividade só faz sentido quando tiveres um cliente para facturar.
Quanto desconto no primeiro ano de actividade? Para a Segurança Social, nada: estás isento no primeiro ano. Se os teus clientes forem empresas, continua a haver retenção de IRS no recibo.
Tenho de cobrar IVA? Só a partir de 15 000 € de facturação anual. Abaixo disso estás isento.
Posso ter recibos verdes e um emprego ao mesmo tempo? Sim, e é o caminho que recomendo a quem está a começar. Com contrato, a Segurança Social já está paga pelo teu emprego, e até um certo valor de facturação não descontas outra vez.
O dinheiro que a empresa me retém está perdido? Não. É IRS adiantado em teu nome. No acerto anual do IRS, parte desse valor pode voltar para ti.
Fontes
- Portal das Finanças, Faturas e Recibos Verdes (consultado a 19/10/2026)
- Segurança Social, Trabalhadores Independentes (consultado a 19/10/2026)
- Autoridade Tributária, folhetos informativos (consultado a 19/10/2026)