Andei 12 anos na escola e ninguém me explicou o que a inflação faz ao meu salário. A educação financeira que tenho aprendi-a fora da sala de aula, muitas vezes à custa de erros. Neste artigo explico o que ela é na prática e as 9 lições que mais mudaram a minha vida: inflação, custo de oportunidade, riscos assimétricos e a vantagem de começar antes dos outros.

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O que é educação financeira

Educação financeira é o conjunto de conhecimentos e hábitos que te permitem decidir melhor sobre o teu dinheiro: saber quanto entra e quanto sai, proteger o que tens da inflação, avaliar um risco antes de o correres e escolher onde pões o teu tempo e as tuas poupanças para que rendam mais.

Há uma parte técnica, que é a mais fácil de aprender: salário bruto e líquido, juros compostos, fundo de emergência, taxa de esforço. Escrevi sobre ela no guia de literacia financeira para leigos.

E há uma parte que ninguém te dá num manual: a forma de pensar. É essa que faz a diferença entre duas pessoas com o mesmo salário e vidas financeiras completamente diferentes. É dessa que vou falar aqui.

Setembro é mês de regresso às aulas e dei por mim a pensar no que a escola me ensinou. Ensinou-me muita coisa. Não sou daqueles que dizem que o teorema de Pitágoras ou a biologia não servem para nada. Até me arrependo de não ter sido melhor aluno. Estudava o suficiente para passar de ano, porque não gostava da escola. Só descobri a vontade de estudar a sério quando encontrei um trabalho de que gostava.

Mas sobre dinheiro, quase nada. Estas são as lições que tive de aprender sozinho.

1. A inflação come o teu dinheiro em silêncio

Se tiveres de ficar só com uma frase sobre inflação, que seja esta: se não fizeres nada com o teu dinheiro, com o passar do tempo compras menos coisas com o mesmo dinheiro.

No início dos anos 2000 quase ninguém falava disto. Depois da pandemia passou a ser um problema real. Em 2022, os preços em Portugal subiram em média 7,8%, o valor mais alto desde 1992, segundo o INE.

A inflação também está no teu salário. Se ganhas o mesmo há três anos, estás a levar menos para casa, mesmo que o número no recibo seja igual. Ou encontras forma de o teu rendimento subir pelo menos ao ritmo dos preços, ou garantes que o dinheiro que tens de parte, no mínimo, acompanha a inflação.

Guardar dinheiro debaixo do colchão é meia verdade. Ter uma reserva é importante. Mas, se tens pouco dinheiro, o investimento que mais rende costuma ser no teu conhecimento, para teres uma profissão que te pague mais.

2. O dinheiro vem de resolver problemas

Na escola somos treinados a responder a perguntas. Crescemos com a ideia de que, se soubermos mais, vamos ganhar mais. “Estuda se queres ser alguém na vida.”

Só que eu posso ser excelente numa área onde não há problemas para resolver, e aí o conhecimento vale pouco. O dinheiro está em resolver problemas, e às vezes são os mais simples.

Um eletricista pode ganhar muito dinheiro hoje porque resolve um problema para o qual há pouca gente disponível.

Outro exemplo que vi há pouco tempo: à entrada de um parque aquático, num dia de calor, estava um senhor a vender garrafas de água. “Queres água? Aqui é mais barata do que lá dentro.” Muita gente comprou. Ele percebeu um problema antes de acontecer (as pessoas iam ter sede e pagar mais caro lá dentro) e resolveu-o cá fora.

Liga o radar. Que problemas existem à tua volta que ninguém está a resolver? É aí que está o dinheiro.

3. Ficar parado também custa (o custo da inação)

Ficar parado tem um preço, mesmo que não o vejas na conta bancária. Um mês sem trabalhar ou um ano sem aprender nada de novo tem um custo.

Na aula de boas-vindas da minha mentoria pergunto sempre: “Há quanto tempo não aprendes nada de novo?” Fico surpreendido com quantas pessoas respondem 10 ou 15 anos.

Vejo muitas vezes pessoas a fazer contas entre ficar com o subsídio de desemprego ou aceitar um trabalho que paga mais 150 ou 200 euros, e a concluírem que compensa ficar em casa. Na folha de cálculo pode compensar. Mas enquanto estás parado perdes ritmo e contactos que só aparecem a quem está em movimento.

Se sentes que parar de aprender já te está a custar, começa pelo guia sobre como aprender mais rápido qualquer coisa.

4. O custo de oportunidade: o preço do caminho que não escolheste

Os economistas chamam custo de oportunidade àquilo de que abdicas quando escolhes um caminho em vez de outro. O perigo é que este custo não aparece em lado nenhum.

O Nick Maggiulli, no livro A Escada da Riqueza, dá um exemplo simples: se leva cinco horas a escrever um artigo, o custo de oportunidade é tudo o resto que podia ter feito nessas cinco horas.

Quando não compras o iPhone novo, sabes exatamente o que estás a perder. Quando não experimentas uma coisa nova, nunca chegas a saber quanto te custou.

Eu dava aulas de ténis. Em 2008 e 2009 comecei a olhar para o digital e criei o meu blog. Se não o tivesse feito, podia ter passado a vida inteira naquele clube a ganhar pouco mais do que o salário mínimo. Esse era o custo de oportunidade de ficar onde estava, e eu não o via.

Cuidado para não andares como uma barata tonta atrás de tudo o que aparece. Mas cada vez que fechas os olhos a uma possibilidade estás a pagar um preço, só que não recebes a fatura.

5. Riscos assimétricos: perder pouco, ganhar muito

A maioria das pessoas não conhece este conceito. Um risco assimétrico é aquele em que, se correr mal, perdes pouco e a tua vida não muda grande coisa; se correr bem, a tua vida pode mudar radicalmente.

Pedir um empréstimo de 100 mil euros para abrir um negócio e, se falhar, ficar 10 anos a pagar dívidas é um risco enorme, e nada assimétrico.

Comprar um livro que achas caro é. Se não o leres, não muda nada. Se aprenderes uma coisa que te abre uma porta nova, pode mudar tudo.

Quando alguém me diz “tenho medo de começar um curso online de 500 euros”, pergunto: se correr mal, isso vai mudar completamente a tua vida? E se correr bem? Eu sou uma pessoa muito medrosa com riscos. Mas percebi que existem riscos assimétricos e que muitas vezes o maior risco é não arriscar nada.

6. Errar faz parte de ganhar dinheiro

Imagina uma criança de 7 anos que arrisca uma resposta e o professor responde, à frente da turma: “Estás a dormir? Isso não faz sentido nenhum.” O que é que ela aprende? Que tentar sem ter a certeza acaba em vergonha pública.

A Carol Dweck descreve isto no livro Mindset: os bebés não têm medo de errar, mas assim que as crianças aprendem a avaliar-se, algumas passam a fugir dos desafios com medo de não parecerem inteligentes.

Anos depois, essa pessoa quer começar uma profissão nova, ou mostrar-se na internet, e fica bloqueada. Não percebe porquê, mas o cérebro foi treinado a evitar o erro.

O problema é que o dinheiro recompensa o contrário. A maioria dos vídeos que faço no YouTube e no Instagram não corre como eu queria. A maioria dos negócios que experimentei não correu como planeei. Procuro acertar nos poucos que mudam o jogo.

O Ricardo, meu aluno, era encarregado numa estamparia têxtil há 20 anos quando começou a gestão de tráfego a part-time. Enviou 300 e-mails até conseguir o primeiro cliente. Quantas pessoas desistem ao fim de 10 respostas negativas? Contou a história na entrevista com o Ricardo no LLCast.

Crescer é errar mais vezes do que acertar.

7. Ser muito bom numa coisa vale mais do que ser mediano em tudo

Na escola, se tiravas uma nota excelente a Matemática e negativa a três disciplinas, chumbavas. A mensagem implícita era: mais vale ser mediano em tudo e passar de ano do que ser muito bom numa só coisa.

O dinheiro funciona ao contrário. Paga a quem é muito bom numa coisa e sabe o suficiente das outras.

Eu saí da situação em que estava por dominar uma coisa: anúncios de Facebook e Instagram. Sabia um bocadinho de vendas, de dar aulas, de gravar vídeos. Mas nos anúncios sabia tudo de cor e salteado, porque fiz aquilo todos os dias, durante muitas horas, ao longo de muitos anos.

8. O dinheiro não está na manada

Já reparaste que os melhores alunos da turma raramente são os que acabam a ganhar mais dinheiro? Pela minha experiência, costuma ser o mais rebelde ou o mais calado, aquele em quem ninguém apostava.

Crescemos a ouvir “todos passaram menos tu” e aprendemos que o seguro é fazer parte do grupo. Mas se queres ganhar acima da média, tens de aceitar fazer parte da minoria. Quem faz o mesmo que toda a gente tende a ganhar o mesmo que toda a gente. É também por isso que a corrida dos ratos apanha tanta gente.

9. Começar antes dá-te uma vantagem enorme

A escola ensina-te a andar ao ritmo de todos: começas o ano quando todos começam, passas quando todos passam, entras na faculdade quando todos entram.

No dinheiro, a velocidade conta. O Nick Maggiulli mostra, em A Escada da Riqueza, o caso de alguém que investe o mesmo valor todos os anos durante 40 anos: os primeiros dez anos de contribuições acabam por valer mais de metade do total final, porque o que fazes mais cedo tem mais tempo para crescer.

Cada vez que adias estás a somar o custo da inação ao custo de oportunidade, e nenhum deles se vê. Começar cedo é, em si, um risco assimétrico. Se os anúncios não tivessem resultado comigo, eu já estava na internet desde 2008 e provavelmente tinha dado certo noutra coisa, só por ter começado antes.

Muita gente trava porque acha que já chegou tarde. Escrevi sobre isso no artigo sobre mercado saturado: os números mostram que a maioria desiste muito antes de ti.

A educação financeira em Portugal: o que dizem os números

Para ser justo, a escola portuguesa não ignora o tema por completo. A Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania inclui a dimensão “Literacia Financeira e Empreendedorismo”, mas só é obrigatória em pelo menos um ano de cada ciclo. Na prática, é pouco tempo para mudar a forma como alguém pensa sobre dinheiro.

E os resultados veem-se. No 4.º Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa, feito em 2023 pelo Banco de Portugal, CMVM e ASF:

  • só 55,8% dos portugueses mostram perceber o que é o poder de compra e a sua relação com a inflação;
  • só 24,2% respondem bem às perguntas sobre juros simples e juros compostos;
  • entre quem poupou, 84% deixa dinheiro parado na conta à ordem (em 2020 eram cerca de 60%).

Ou seja: se aplicares mesmo só algumas destas 9 lições, já estás à frente da maioria. E o primeiro passo é mais simples do que parece.

Por onde começar a tua educação financeira

Se nunca trataste do assunto, esquece a folha de Excel com 40 abas. Faz isto por esta ordem:

  1. Sabe quanto entra e quanto sai. Um mês inteiro, tudo apontado. É chato e é o único passo desta lista que não podes saltar, porque sem ele os outros quatro são palpites.
  2. Junta um colchão de segurança. Três a seis meses de despesas numa conta a que chegas depressa. É isto que te dá margem para recusares um trabalho mau e para arriscares quando aparece uma oportunidade assimétrica.
  3. Tira o resto da conta à ordem. Já viste em cima: 84% dos portugueses que pouparam deixam lá o dinheiro a perder valor. Mesmo um produto simples é melhor do que zero.
  4. Trata do lado do rendimento. Cortar despesa tem um limite; ganhar mais não tem. Aqui ficam formas de ganhar uma renda extra em Portugal que podes começar em paralelo com o teu emprego.
  5. Aprende uma coisa a sério. Escolhe uma competência que o mercado pague e mete-lhe horas até a dominares por completo. É a lição 7 aplicada à tua semana.

Repara que só os três primeiros pontos são sobre poupar. A educação financeira que mudou a minha vida foi sobretudo a dos pontos 4 e 5.

Resumo: as 9 lições que a escola não deu

  1. Inflação: dinheiro parado perde valor todos os anos.
  2. Resolver problemas: é isso que te pagam, não as respostas que sabes.
  3. Custo da inação: ficar parado custa ritmo, contactos e experiência.
  4. Custo de oportunidade: cada caminho que não escolhes tem um preço invisível.
  5. Riscos assimétricos: procura apostas em que perdes pouco e podes ganhar muito.
  6. Errar: quem ganha mais é quem tenta mais vezes.
  7. Pontos fortes: sê muito bom numa coisa.
  8. Manada: acima da média significa fazer diferente da maioria.
  9. Começar antes: adiar é o erro mais caro de todos.

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Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre educação financeira e literacia financeira?

Na prática são usadas como sinónimos. Quando há distinção, literacia financeira é o nível de conhecimento que uma pessoa tem (aquilo que o Banco de Portugal mede nos inquéritos) e educação financeira é o processo de o adquirir, seja na escola, no trabalho ou por iniciativa própria.

Como começar a educação financeira do zero?

Aponta todas as entradas e saídas durante um mês, junta três a seis meses de despesas como fundo de emergência, tira o excedente da conta à ordem e, em paralelo, trabalha o lado do rendimento aprendendo uma competência que o mercado pague bem.

A educação financeira é obrigatória nas escolas em Portugal?

Em parte. A dimensão “Literacia Financeira e Empreendedorismo” faz parte de Cidadania e Desenvolvimento, mas a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania de 2025 só obriga a abordá-la em pelo menos um ano de cada ciclo de ensino.

Como ensinar educação financeira às crianças?

Pela conversa e pelo exemplo. Explica de onde vem o dinheiro que entra em casa e deixa a criança gerir uma quantia pequena, com liberdade para a gastar mal. O custo de oportunidade percebe-se melhor assim do que explicado: se gastares isto hoje, ficas sem aquilo no próximo mês. O Banco de Portugal tem cadernos de educação financeira gratuitos, feitos para as escolas, que dão para usar em casa.

O que é um risco assimétrico?

É uma aposta em que a perda possível é pequena e o ganho possível é grande. Comprar um livro ou fazer um curso barato são exemplos: se não resultar, perdes pouco; se resultar, pode mudar a tua carreira.

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